Escárnio e bem dizer
terça-feira, janeiro 04, 2005
 
A noite (parte III)

Paulo largou Maria e desapareceu numa viela escura. Ela sabia o que ele ia fazer. Já tinha pensado por várias vezes acompanhá-lo e entrar também nessa "vida". Afinal ela queria destruir-se. Mas algo a fazia recuar. Algo a fazia pensar duas vezes.
"Se o fizer que seja com alguém em quem confie". Maria não confiava em Paulo. Não o suficiente para se drogar com ele.
Essa decisão de não se drogar "à toa", levava-a a pensar que talvez nem tudo estivesse perdido. Talvez ainda existisse uma réstia de amor próprio. Afastou o pensamento e subiu a rua do arco. Uma rua escura, tão escura como a alma de Maria. Ao passar pelos bares os porteiros cumprimentavam-na:
- Então, Maria, vens para aqui hoje?
- Já cá passo.
E passava mesmo. Todas as noites corria todos os bares. Já era sufientemente conhecida para andar de um lado para o outro sem ter de pagar o consumo mínimo todas as vezes que saía.
Naquela noite sentia-se ainda mais só do que nas outras. Apesar de estar acompanhada, sentia-se só. Por isso encostou-se ao balcão, em vez de ir dançar, e pediu bebida atrás de bebida, cigarro atrás de cigarro.
Maria gostava da sensação cósmica que a bebida lhe trazia. Gostava de sentir um vazio no peito e na mente e de ver o mundo a girar.
Não parou de beber mesmo quando deixou de perceber onde estava. Nem parou de beber quando deixou de conhecer as pessoas que a rodeavam. De repente sentiu-se cair. Alguém a apanhou e levou lentamente ao chão. Maria não conseguia reagir. As pernas não levantavam, a boca não respondia às ordens do cérebro para falar. Sentia que devia estar desmaiada mas ainda ouvia tudo à sua volta.
"Eu sou enfermeiro!", disse alguém. "Chamem uma ambulância, aqui já não consigo fazer nada"...
"Vai mais depressa. Temos de chegar ao hospital ou ela morre".
"Eu não quero morrer. Não assim". Pensou Maria enquanto ouvia a sirene e sentia o ar a faltar. E, de repente, a sirene calou-se. Tudo se calou.

Maria acordou na manhã seguinte. Ainda estava tonta. Doía-lhe a garganta e o peito. Doía-lhe o braço. Tinha uma agulha espetada nas costas da mão direita que a magoava imenso. Mas acima de tudo doía-lhe a alma.
Nessa manhã tomou uma decisão. Na noite anterior, enquanto sentia, angustiada, o ar a faltar, percebeu que não queria morrer, nem queria sofrer.
Ao chegar a casa abriu a janela e deixou entrar o sol. Queria que ele entrasse pela casa dentro, lhe iluminasse a alma e acabasse com a noite que estava lá instalada. Decidiu erguer-se e manter-se erguida. E essa foi a melhor e mais difícil decisão da sua vida.
 
A noite (parte II)

No "tasco" tocavam viola e cantavam. Maria juntou-se ao grupo. Havia vinho e chouriço à discrição e cada um pagava uma rodada.
Seduzida sentou-se ao colo de Paulo. Taparam-se com a sua capa de estudante. Daquelas capas que se tivessem boca para contar, contariam muitas histórias e nem todas eram bonitas.
Ali debaixo beijaram-se. Maria beijava enquanto ia metendo uma mão de fora da capa para ir buscar mais um pouco de vinho. Paulo e Maria estavam bebedos. As amigas riam do que se passava. E a música continuava.
Aquela era a primeira vez que Paulo e Maria se beijavam em público. Há dois meses que estavam envolvidos. Muitas tinham sido as noites que tinham passado juntos na casa de um ou do outro. Maria sentia-se mal com a situação porque eram apenas amantes. Amantes de sexo, nada mais. Naquela noite, no entanto, beijavam-se publicamente ainda que escondidos debaixo da capa. A muitos passaram despercebidos. Mas tinham sido vistos pelos suficientes para que, no dia seguinte, já toda a gente soubesse o que se passava e já toda a gente fizesse o seu próprio filme sobre o assunto. Era o preço da popularidade. Uma popularidade que Maria nunca quis mas que alcançou por ser tão irreverente. Uma irreverência baseada apenas no seu desejo de sofrer. Afinal era uma rapariga que não se preocupava com nada e isso alimentava a admiração de uns e a inveja de outros.

(cont.)
 
A noite (parte I)

Descendo a rua de prédios onde a sujidade já tinha história, iluminada por aqueles candeeiros de luz amarela e tão fraca como ela se sentia. Aquela era apenas mais uma noite para Maria, uma que começava como tantas outras... descendo a rua escura que levava aos bares.
Já ia bebida. Com ela iam as amigas que não se apercebiam que Maria não bebia pela diversão. Maria tinha um objectivo: esquecer-se de si mesma e destruir-se.
Naquela altura lembrava-se da humilhação que tinha vivido. Lembrava-se e culpava-se por ter-se humilhado, por ter suplicado, por ter aceite um jogo que sabia, à partida, que ia perder.
As coisas correram tal como ela tinha imaginado, mas o sofrimento causado foi maior do que ela estava à espera, e por isso queria destruir-se. Matar-se seria demasiado fácil. Maria achava que merecia sofrer.
Entrou no "tasco" onde toda a gente a conhecia: desde o dono, à clientela habitual. Maria era popular e quando saia nunca ficava sozinha. Mas sentia-se tão só.

(Cont.)

segunda-feira, janeiro 03, 2005
 
As saudades.
De ti. De nós. Daquele abraço. Daqueles momentos tão nossos.
"Passei por aqui"
Passa de novo por aqui e entra. Saudades. De ti. De nós. Daquela varanda virada para o Tejo onde nos rimos e sorrimos. Dos carros, lá em baixo, na estrada onde passas todos os dias. Dessa estrada. Da tua rua. Do teu cheiro. Do nosso cheiro. Daquela lareira a aquecer uma sala de pedra. Da coluna, aquela coluna onde nos vemos. De ti. De nós.
Saudades de precisar de ti. De te falar. De te ouvir. Da conquista que vivemos. Da tua voz.
Saudades. De ti. De nós.
Tantas! caramba... tantas!
 
Ai mulher! que rapidez... bolas!
 
Eia! ainda sei meter imagens e tudo...
 
E:


Muitos parabéns Nelson e Sara.
 
Obrigada:

Catarina
Nelson
Louise
Eduardo
Sharkinho
Whiteball
T&V

E a todos os que aqui vieram mesmo aos que o fizeram só por não terem mais nada para fazer e por isso percorreram vários blogs da blogosfera só para ofender. É sempre giro rir um bocadinho da vida triste dos outros.




 
olha... lembrei-me da password do blogger. Mas porque raio uso eu uma password diferente para cada coisa onde me inscrevo?


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